Marrakech

Há muito que não escrevia aqui no blog… a verdade é que o retorno é quase zero e começou a ser uma rotina pouco valorizada. De vez em quando lá me lembro de publicar o look mas mantenho-o, sobretudo, para vos falar de assuntos que, na minha opinião, vão ajudar alguém. É o caso de hoje…

Quem me segue no instagram sabe (tem de saber, dado o excesso de fotografias) que estive em Marrakech recentemente. Sempre foi um local que tinha muita curiosidade em conhecer… por tudo, pela experiência, por ser perto de Portugal, relativamente barato (percebi que não é bem assim), pelas fotografias que via, tudo. Só conhecia uma pessoa que não tinha gostado e, mesmo essa pessoa, não sabia dizer concretamente o porquê. O Guilhas, meu namorado, também queria muito ir e, há uns meses, lembrei-me de fazermos esta viagem no dia dos namorados – era a altura certa!

Fiz as malas com os looks que achei que seriam mais apropriados para o local (muita cor, túnicas compridas, calças largas, sandálias rasas, muitos lenços), pensei em todos eles pormenorizadamente, como os fotografaria e imaginei como se enquadrariam no local. Estava perfeito, na minha opinião. Comprei o livrinho que sugere os locais a visitar na cidade, pedi opiniões, fiz print de milhares de fotografias que vi e que tinha adorado, tudo para me inspirar para uma viagem perfeita.

O dilema começou quando tive de escolher o local onde ia ficar: riad, hotel, dentro ou fora da medina. A verdade é que muita, muita gente me disse para ficar num Riad e dentro da medina, podia experienciar mais a vida deles, a cultura e andava a pé para todo o lado – não há dúvida que tinham razão. A maioria dos Riads estão dentro da medina, ou seja, a parte antiga de Marrakech. São tipo hostels, mais acessíveis que um hotel, mas, sendo em marrocos, são todos bonitinhos, com aqueles laguinhos (supostamente é piscina mas a mim parecem mais lagos) no pátio, almofadas com franjinhas e sofás coloridos. Pareceu-me bem. Marquei o Riad De Vinci de uma selecção de vários porque me pareceu o mais bonitinho dentro dos valores que queria pagar (acabei de comprar um carro e não era altura de esbanjar dinheiro).

Outro bom conselho que me deram, ainda em Portugal, foi para não trocar dinheiro cá. Troquei 150€ cá (que deu aproximadamente 1050 dirhams) para levar algum dinheiro caso precisasse, e uns euros para trocar lá, como me tinham aconselhado. Se viajasse novamente, sabendo o que sei hoje, tinha trocado muito menos. Se tivesse trocado os 150€ lá em Marrocos, numa das milhares de lojas de câmbio espalhadas pela cidade, tinha conseguido 1500 dirhams (e 450 dirhams dá para almoçar num restaurante fancy, portanto, é “muito” dinheiro).

O DIA DA VIAGEM:

Íamos voar no voo das 18:45hr , aterrando no Aeroporto de Marrakech aproximadamente às 22hr (horas locais, é mais uma hora que Portugal). Logo aí comecei a ficar irritada… Têm de passar as malas por raio X em todas as portas que passam e para saírem do Aeroporto, precisam de preencher um papelinho ridículo onde…NÃO FORNECEM CANETAS! Ora bem, eu até era de andar com esferográficas na carteira, mas isto antes de ter um telemóvel topo de gama onde posso apontar tudo aquilo que quero e nunca se perderá. Claro que não havia quase ninguém com caneta, o aeroporto não cedia canetas, e então ficámos uma hora a tentar arranjar alguém que nos emprestasse uma para preencher o maldito papel. Lá conseguimos.

O pobre do senhor que nos ia dar boleia, pedi por email ao Riad (façam isso porque, de outra maneira, com certeza ainda estaria perdida no meio de Marrakech a esta hora) esteve quase duas horas à nossa espera e, mal nos viu, lá seguimos na carrinha com tapetes de animais (isto é mesmo verdade) em direcção ao hotel. Ao Riad, vá. Passou-me rapidamente a questãozinha do papel no aeroporto. O senhor era mega simpático, ia a falar connosco de tudo, a mostrar tudo e, apesar de ser de noite, pareceu-me tudo bem giro, cheio de palmeiras e muros cor de laranja. Se por alguma razão, acharem que vão morrer a qualquer momento num acidente de viação, é normal – lá não há regras de trânsito, não se pára nas passadeiras e é, basicamente, o salve-se quem puder. Mas isso, são outros quinhentos.

Passámos o muro da medina e, logo à direita “here, La Mamounia”, ouvi o motorista a dizer. Petrifiquei. O La Mamounia é a coisa mais linda que já vi, até por fora! Faz lembrar as entradas daqueles hotéis do Algarve, tipo o Conrad na Quinta do Lago, sabem? Monumental. Fiquei logo toda contente porque no dia seguinte ia fotografar lá dentro – quanto a este assunto, que muita gente me perguntou, eu acho que qualquer pessoa entra (estando minimamente bem vestida) mas há partes do hotel que eles não permitem que quem não está hospedado vá. Eu pedi autorização para fotografar antes, por email, explicando o meu trabalho, e foi tranquilo (mas marcaram hora e dia ahahah).

Dentro da medina é tudo mais confuso, o trânsito mais caótico, muita, muita gente na rua, muito barulho, cavalos, burros e…muitas motas!!! Mas ainda não tinha chegado a pior parte, e até achei alguma piada àquilo (sabendo que ia apanhar confusão em qualquer lado que fosse). Chegámos à última rua onde podiam circular carros antes do nosso Riad. O motorista chamou um miúdo que estava encostado à parede a fumar cola (não é nenhuma expressão nortenha, era mesmo aquilo que ele estava a fazer) e começa a falar com ele na língua deles que, pelo menos para mim, é assustadora. Podiam estar a combinar o nosso rapto e roubo de orgãos e nós ali, a sorrir e a acenar, tal qual os pinguins do madagáscar, porque é impossível perceber o que quer que seja. Mas não, só estavam a combinar que o “tal” que estava a fumar cola há um segundo, nos ia levar ao nosso Riad pelas ruas escuras (escuras tipo escuras mesmo, sem uma lanternazinha de iphone sequer…) e transportar as nossas malas num carrinho de mão. Ok, é gira a ideia até, pensei eu. Até saquei da máquina pequenina para fazer um vídeo do rapaz a levar-nos mas não se vê grande coisa, como devem imaginar. O problema é que as ruinhas (literalmente) até ao riad, eram só ASSUSTADORAS – escuras, estreitas e as únicas pessoas que víamos (mal) eram rapazitos com ar de quem nos ia cortar um membro do corpo – e, naquele momento, intermináveis. Lá chegámos, numa rua ainda mais estreita que aquelas por onde tínhamos passado, e a entrada do nosso Riad era por uma porta que só o meu sobrinho passaria desafogado. Pedimos um local onde pudéssemos comer qualquer coisa, era tarde, mas algo rápido. O senhor que estava no Riad ofereceu-se logo para nos acompanhar até lá – ufff. Comemos um panini de frango, feito por mãos muito sujas sem luvas e com ingredientes estranhos mas “era a cultura deles” e nós íamos para isso mesmo. Quando voltei ao riad, sozinha com o Guilhas, ia um bocado assustada porque estávamos a fazer as ruas sozinhos, mas lá chegámos e fomos para o quarto. Mandei mensagem no grupo de whatsapp da minha família perguntando se alguém já lá tinha estado porque não estava a gostar muito. Não estava a começar bem.

No dia a seguir acordei com um sol radioso, tomámos um pequeno almoço agradável no terraço do Riad e fiquei logo mais entusiasmada. O Sr. Riad, nome do dono do Riad (só uma coincidência engraçada) era muito simpático e rapidamente nos explicou algumas coisas: não ir pelos souks para o hotel depois da última oração (+/- 20:30hr), locais a visitar, número para ligar se nos perdessemos, etc.

Fomos à aventura. A partir de agora, não vos vou dizer passo a passo tudo o que fiz pois ficariam a ler isto durante três dias e é preciso avançar!

Vou dizer-vos o que mais gostei e o que menos gostei, com pontos positivos e negativos de Marrakech. Quero relembrar-vos que isto foi a MINHA experiência e com certeza a vossa poderá ser diferente.

Então comecemos com os pontos positivos:

  • as cores – Marrakech é uma cidade repleta de cores fortes e cativantes, qualquer parede tem azul, laranja ou amarelo, as especiarias são de cores garridas, os tapetes gigantes são hipnotizantes, jardins coloridos…
  • os restaurantes – só fui a restaurantes aconselhados por pessoas que já lá tinham estado e adorei, apesar de não gostar mesmo nada da comida de Marrakech. Sabores muito fortes, picantes, especiarias que desconhecia, sabores alterados. Fui almoçar ao Térrasse des Épices, ao Le Jardin e ao Nomad. Lanchei no Café des Épices, também, e todos estes locais que referi são do mesmo dono. Só vêem turistas, os empregados falam minimamente bem inglês e são educados. Paguei sempre entre 450/600 dirhams por refeição para duas pessoas (aproximadamente 45€/60€).
  • o Hotel La Mamounia – é de facto muito bonito e a partir do momento que passam o portão parece que chegaram ao paraíso. Os milhares de funcionários do Hotel são extremamente educados e cada canto daquele lugar é MARAVILHOSO.
  • Jardins Majorelle – não é espectacular, tem fila para entrar, nada de especial para ver. Mas é engraçado, vá. Custa 18€ por pessoa para entrar (com a visita ao museu YSL).

Pontos negativos:

  • Insegurança- os únicos locais onde me sentia segura, tranquila e podia relaxar eram os restaurantes e o Riad. Ah, e o La Mamounia. (o problema era ir até lá) Sempre que tinha que andar a pé ia com o coração a mil, atenta a qualquer passo das outras pessoas, preocupada com a carteira e a mochila com a máquina fotográfica, a fugir de cavalos, burros ou motas, ou dos marroquinos que me impingiam coisas.
  • Sujidade- eu estive praticamente sempre dentro da medina, só saí para ir aos jardins de Majorelle e, do que vi, é mesmo uma cidade suja, cheira muito mal e eles são, desculpem a expressão, muito porcos. Os cavalos e burros andam por todo o lado e fazem xixi na rua. Oh gente, aquilo sai com tal pressão que “espirra” para tudo que estiver à volta, incluindo as minhas pernas.
  • Abordagem- uma das piores coisas, para mim, foi a abordagem dos locais aos turistas. Tocam, falam muito perto, andam atrás de nós, estão constantemente a tentar enganar-nos (por ex. dizem-vos que não podem ir por uma determinada rua porque não tem saída e mandam-vos por outra – na realidade não podemos adivinhar se estão a dizer a verdade ou só nos estão a mandar para um beco sem saída para nos assaltar, como aconteceu à nossa frente a um turista que acabámos por levar para o nosso riad para se acalmar). Sendo mulher, pior é. Eles estão constantemente a olhar para nós de uma forma que não deixa ninguém confortável, comentam, mandam bocas.
  • GPS- Pois é, a menos que queiram pagar contas de centenas de €€ de telemóvel para ter dados móveis, não há google maps e as apps de mapas offline funcionam muito mal. A zona dos Souks (onde está a maioria do comércio para turistas) são milhares de ruas todas iguais, com locais a venderem coisas todas iguais, muito estreitas e mal cheirosas, sem placas de indicação para onde quer quer seja. Para além disso, mesmo nos sítios com internet (os restaurantes bons) o sinal é fraco e muitas vezes não funciona.
  • Motas- Eles são malucos, eu juro-vos. Então imaginem a largura do vosso elevador. Agora imaginem turistas dum lado e turistas do outro. Agora imaginem motas a passar aí. Faz sentido? Nenhum. Nos souks só andam motas ou burros e eles não querem saber de ninguém, não abrandam, não andam devagar sequer. Buzinam e passam-nos cada rasa, daquelas que sentem os pêlos dos braços a levantar da brisa. Claro que levar com retrovisores das motas é algo natural, também. Habituem-se.
  • Gatos- Não sei que raio de coisa eles têm com gatos mas, apesar de eu até gostar dos bichos, eles são milhões e andam por todo o lado! Por duas ocasiões, tive um gato sentado na minha mesa de jantar. Sim. Isso mesmo. Não têm medo de ninguém.
  • Comida- Odiei a comida marroquina, como já disse anteriormente. Rezei por uma sopa da minha mãe ou por um arrozinho com filetes de pescada. Nem as batatas fritas eram boas. Porra, são batatas fritas, não há muito para inventar! O Guilhas comeu, em duas refeições, esparguete à bolonhesa, porque era o mais normal.
  • Trânsito- Quando saímos da medina para ir aos jardins de Majorelle, andámos por estradas grandes, largas. Com semáforos e passadeiras. Mas as passadeiras não servem para nada porque a única maneira de eles pararem é no sinal vermelho do semáforo. Se não houver semáforo, corram e, como disse, é o salve-se quem puder!
  • Falta de Mulheres – Eu não sei o que é que eles lhes fazem mas 95% das pessoas que vi lá foram homens. Havia mulheres a trabalhar nos restaurantes e muito poucas a fazer as tattoos de hena ou a vender coisas feitas à mão.

De facto, agora que estou de volta, posso dizer-vos que foi a pior experiência da minha vida. Que vim completamente desgastada psicologicamente, stressada e com uma sensação de medo terrível. E eu até era a mais tranquila. Discuti várias vezes com o Guilhas dizendo “porque e que estás a falar assim com ele? ele só nos está a ajudar”, “deixa de ser maluco, em Portugal nós também temos “mau aspecto”, eles aqui têm mau aspecto mas não quer dizer que nos vão fazer mal” ou “claro que vamos por aqui, qual é o problema?Pára de desconfiar de tudo”. O assalto ao holandês a que assisti na rua do Riad, foi pouco tempo antes de vir embora e era o que faltava para eu ter a certeza de que aquilo não era para mim. É um desconforto constante, uma preocupação constante, um desgaste constante.

Não vos quero assustar e já falei com muita gente que adorou tudo, mas, depois de conversar com várias pessoas sobre a minha experiência, também percebi que houve muita gente que não gostou e que sentiu o mesmo que eu. Não quero mesmo voltar!

A coisa boa? Tirei fotografias lindas que vieram dar cor às minhas redes sociais mas, o paraíso está aqui, onde estou a escrever isto: a minha casa, o Porto, Portugal!

Mariana.

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Riad De Vinci
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Hena Tattoo
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Riad de Vinci
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Majorelle Gardens
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Le Jardin Secret
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Riad de Vinci
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Prato típico

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Rua onde o Holandês foi assaltado
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Riad de Vinci
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Cores
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La Mamounia
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Tapetes
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La Mamounia
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La Mamounia
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Uma omelete – à moda deles!